terça-feira, 17 de novembro de 2015

Desculpas

Todos temos um lado escuro que ninguém nunca vê.
Uma face que insistimos em esconder.
Um traço de nossa personalidade que só nós conhecemos.
Aquilo que nos torna únicos.
Um detalhe que faz parte de nós, sempre fez.
                                         
Nosso grande erro é sempre culparmos nosso lado escuro pelos nossos defeitos.
Não. Nossa outra face não é feita de defeitos.
Nosso outro Eu não é um monturo de erros e vícios.
É sim, o que temos de mais singular.

Nossos defeitos são fruto dos nossos hábitos.
Somos escravos dos nossos caprichos por opção.
Dominados por desejos que nós mesmos escolhemos alimentar.
Somos assim porque decidimos e queremos.
Isso não é a manifestação de uma personalidade latente da qual não temos controle.

A vida é só um jogo, e o final é sempre o mesmo.
Todos vamos morrer.
Em função do que estamos vivendo?
A que estamos acorrentados?
O que parece ser tão necessário nem sempre é.
O que parece ser tão necessário quase sempre é dispensável e substituível.
Sempre temos uma escolha. Sempre. Sempre. Sempre.

Todos temos um lado escuro, que ninguém nunca vê.
Não use isso como desculpa.
O que somos é decisão nossa.

sábado, 17 de outubro de 2015

Memento Vivere

   Era sábado a noite. Ela poderia estar se preparando para sair, beber, dançar, implorar por atenção e aceitação. Conhecer pessoas, interagir com estranhos, pra no final sentir o mesmo vazio que tinha quando saiu. Mas ela preferiu ficar em casa, só de blusa, sentada no banquinho de couro na cozinha, bebendo energético sabor mirtilo e fazendo as unhas com um esmalte carinhosamente apelidado por ela de "vermelho-piranhão".

   O cabelo molhado, a franja embolada e presa num coque pra não atrapalhar o processo da pintura. Do celular vem o único som do ambiente, fora uma ou outra rajada de tiros vindos do morro. Uma mistura de rap paulista com samba. "É bom variar..." ela pensa e sorri. Os dedos ardem a cada pincelada de esmalte por causa dos "bifes" tirados com o alicate. O vermelho-piranhão se mistura ao sangue das cutículas feridas e ela ri da ironia da coisa, sem saber se o que limpava com a acetona era sangue ou esmalte.

   Ela abre outra lata do energético duvidoso, derrama cuidadosamente na caneca de Butterbeer e abre um saco de batatas, que são retiradas uma a uma, numa manobra arriscada, para não borrar as unhas. Olha para o líquido roxo de sabor curioso na caneca, sorri... "Essa minha mania de comprar qualquer bebida que tenha uma embalagem diferente..."

   A noite está quente. Ela olha pelo basculante da cozinha um prédio próximo, com suas janelas iluminadas e fica imaginando o que estariam fazendo as pessoas naqueles cômodos. Imaginou pessoas conversando e rindo enquanto na televisão o apresentador do jornal fala sozinho, sem ninguém dar atenção e o ventilador no teto gira preguiçosamente. Distraída, ela olha de relance para sala do próprio apartamento. As luzes apagadas e a televisão desligada. Mas isso não a entristece, afinal, o que há de errado em ser feliz consigo mesma? O que há de errado em apreciar os momentos mais irrelevantes como se fossem os mais importantes do mundo? Todo momento, bom ou ruim, é feito do mesmo material, o Tempo. Todos são parte de um mesmo todo, tudo é vida. O que os distingue é a importância que você dá a cada um...

...as latas de energéticos acabaram, e o conteúdo da caneca também. Ela segue pro seu quartinho, o computador ligado. Senta na cadeira desconfortável de madeira, e pára um instante para apreciar o mundinho que ela criou, e recriou, reinventou, e reconstruiu. Sua pequena bagunça, seu refúgio. Seu, e só seu. O pensamento a faz se sentir segura, ela fecha os olhos e suspira profundamente, sentindo um abraço invisível... Memento Vivere...

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Das coisas que a vida faz

"Essa sensação estúpida, de sentir e não dizer..."

De repente me veio aquela sensação estúpida de vazio aí resolvi fazer um balanço da vida.

  Acordo feliz, me sentindo tranquila. Está bem frio, e a vontade de sair da cama beira o zero absoluto. Olho para os lados, sinto saudade. Dá vontade de conversar até a garganta secar e a gente se pegar falando sobre os demônios de Maxwell ou qualquer outro assunto completamente aleatório. Tento espantar essa vontade, abanando as mãos no ar, prevendo a bad vibe que isso me trará, somado a um dia chuvoso seria uma combinação desastrosa. Levanto, faço café. Cheiro de café nunca falha em me deixar de bom humor. Escuto a buzina do padeiro, desço correndo. "Me vê dez." Exagero. Mas hoje vai ter sopa. Tomo café pensando em como eu adoro um café forte e quente num dia nublado. Sorrio, sentada num banquinho de plástico na cozinha, fazendo da tábua de passar roupa minha mesa. Falo sozinha, faço planos, escrevo uma lista de mercado. A faxineira chega. "Oi L.., vou no mercado um instante. Precisa que traga alguma coisa?""Traz um vidro de cloro por favor."

  Volto do mercado com cloro, e tangerinas. Adoro tangerinas e o jeito como o cheiro delas entra em você e gruda na sua alma, pra não sair nunca mais. Tangerinas... sorrio. Vou para a cozinha, os braços fracos de todo peso que carreguei do mercado até em casa. Porque a vida não é só feita de tangerinas e cloro. Arrumo tudo, começo a fazer o almoço. Já disse que hoje vai ter sopa?
 
 Comida pronta. Almoço. Recebo um elogio pela sopa. Sorrio. O dia está agradável.
  
  Enquanto lavo a louça penso sobre as coisas que a vida faz. Me sinto estranhamente em paz. Quero um abraço, daqueles bem apertados. Ok, vou me contentar em comer um suspiro. "Preciso escrever sobre isso." Vou para o meu quartinho secreto, que de secreto não tem nada. Armada com meu headphone novo, digito uma e outra frase, entre uma e outra estrofe de músicas nacionais que normalmente eu não escutaria. Ao que parece dentro da rua tem um bosque que se chama Solidão. Escuto coisas caindo e vou ver o que L... está aprontando.
Lembro que eu tenho uma monografia para escrever. Sou obrigada a fazer uma pausa.
  
O dia está estranhamente agradável, e atípico. Sinto saudades. Lá vem de novo a vontade de conversar até a garganta secar. Sorrio. Coisas que a vida faz.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Encerramento


  Não importa quanto tempo você investiu, nunca é tarde para interromper um projeto que não está dando certo.
  Temos a tendência de pensar que, porque demos tanto de nós, não podemos desistir. Que a desistência seria uma atitude covarde. Achamos que virar as costas para um projeto fracassado é admitir anos lançados ao vento, jogados fora, anos que não vão voltar. Nada acontece por acaso... nunca é tarde. Nunca é tarde para reconhecer o que já acabou. Nunca é tarde para identificar e aprender com os erros, guardar as boas lembranças e seguir em frente.
  Não pense que essa é uma atitude egoísta porque ninguém pode viver por você, ninguém pode reparar os seus erros e ninguém vai tomar as consequências no seu lugar. Essa vida é só sua, e você não pode ser responsável pela felicidade nem tristeza de ninguém. Da mesma maneira, não deixe que a sua felicidade venha de outro, porque as pessoas são falhas, e estão fadadas ao erro.
  Encontre a sua paz no encerramento, no fim. Porque o fim das coisas é melhor que o começo, o fim é a única certeza. Entenda e reconheça a sua chegada. Sinta-se abençoado com o que foi, e prepare-se para o que virá. Não deixe que a insistência no fracasso roube a sua vida de você e te prive das experiências incríveis que ainda virão.
  Pare de se preocupar, de tentar entender o que não é para ser entendido. Frequentemente somos vítimas de nosso próprio livre-arbítrio. Nem sempre a vida vai ter uma explicação para o que acontece. A culpa é sua. Assuma. Você iniciou o projeto, ninguém vai terminá-lo por você.
  Não evite o conflito, não fuja, não se esconda atrás da comodidade, da rotina. Não vai melhorar. Pode não piorar, mas nunca vai atingir o potencial que você sonhou.
  Você sabe, você sente, não negue. Não se negue o recomeço. Você lutou por isso, quantas inúmeras batalhas você travou na sua mente. Permita-se a vitória, liberte-se. Não é um ato covarde ou egoísta. Não foi perda de tempo, nem desperdício. Foi válido, não é mais. Não prolongue o tempo ruim ao ponto que ele invalide os tempos bons.
  Não tenha medo do encerramento. Nenhum ciclo novo se inicia sem que o anterior tenha terminado
.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Princesinha de vidro

As águas mais límpidas estão nos poços mais profundos...
Cave... cave mais fundo. Não pense. Desça...
Não se incomode com o silêncio, ele será sua canção de ninar..
-*-
Pequena princesinha de vidro, não fique com medo de se quebrar...
Desça mais... deixe-se envolver pela escuridão, busque sua fonte mais pura.
O caminho, ninguém conhece, ninguém pode te ajudar...
-*-
Não chore, pequenina, esses machucados serão sua coroa...
Seque suas lágrimas e continue.. consegue escutar o som das águas correndo?
Lembre-se do que te trouxe aqui... Não desista, não fuja, você sabe que precisa disso. Essa jornada é só sua, só você pode concluir.
-*-
No mais profundo silêncio, na mais negra escuridão você vai achar o que precisa, você vai renascer e carregar com orgulho as cicatrizes do caminho... você vai encontrar sua força e descobrir que nada pode te machucar. Nada vai te machucar de novo...
-*-
O medo é uma fraqueza. Quebre-se, princesinha, mostre o que há por baixo. Não pense na dor, saboreie cada instante imerso nela. Sinta essa dor em cada um dos seus ossos. Faça dela sua chama. Purifique-se.
-*-
No final do caminho, mergulhe no vazio profundo, lave-se com suas águas mais puras, mais calmas. Sinta-se adormecer, amortecer, renascer...
-*-
... jogue fora sua máscara, pequenina, não esconda seus olhos... levante-se. Forte. Fria. Renascida. Rainha do seu próprio mundo. Aquela que governa, que decide, que julga.

Incontestável. Rainha de Espinhos.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Segunda, 19 de maio de 2008
Horário: 12:50
Local: Praça Saens Pena (não sei colocar ~ no 'n' então vai ficar assim mesmo...)


Fazia muito calor naquela segunda-feira fatídica... eu, com muuuito sono, caminhava para o ponto do ônibus afim de esperar pelo tão sonhado "Útil" que me levaria ao meu destino final... minha casa, meu sofá, meu sono... Caminhávamos a passos vagarosos em meio aquela multidão de pessoas e papéis de "dinheiro fácil"... Já era perto de 13h então era de se esperar que a fome batesse a qualquer momento. E foi quando eu passei por um carrinho de pipocas que ela despertou em mim... Não resolvi parar de imediato, depois de ter chegado ao ponto do ônibus foi que decidi que deveria ir até aquele carrinho e comprar pipoca doce. Compartilhei minha idéia com meus amigos, e fui apoiada. Então, lá fui eu, ao encontro das pipocas, durante o trajeto pensava...'Será que tem leite condensado...?'.
Parei em frente ao carrinho mas a senhora, que mexia a pipoqueira, não percebeu a minha presença. Dei a volta e disse: "Oi...?!", ela me olhou sorridente..." Pode falar." Como todo cidadão brasileiro que tem problemas com as finanças, perguntei o preço antes de pedir as pipocas, até porque no meu bolso só tinha R$1,50..."Tem de 'um' e tem de 'dois'"..."Vou querer uma pequena..." Foi então que o inédito aconteceu...Quando pedi a pipoca a senhora olhou para mim com um ar de intriga... olhou para a pipoqueira que mexia incessantemente e voltou a olhar pra mim..." Ih menina... eu 'tô' fazendo a 'doce', não posso parar de mexer não... mexe aqui pra mim enquanto eu pego sua pipoca"... Olhei para a mulher, olhei para o metal que saía de dentro da panela sem nenhuma proteção contra o calor e pensei..."Vou me queimar com certeza...". A mulher por sua vez, ainda mexia e agora tinha aberto um espaço para que eu me aproximasse e assumisse seu posto... Relutante, encostei no carrinho e comecei a mexer a pipoqueira, que por incrível que pareça, não estava tão quente... Por outro lado, o vapor que escapava da panela era insuportável... E eu debaixo do sol... Perto de 13h... Quando ela terminou de encher o saquinho "feito com carinho" perguntou: " Quer leite?", a resposta era óbvia: "Quero!". Quando eu pensava que poderia finalmente desfrutar daquelas maravilhas doces encostou no carrinho um homem gordo e sem camisa, uma senhora e uma menina... Pediu uma pipoca para a criança... A mulher, confusa, me olhou (eu ainda mexendo a pipoqueira) olhou para o homem, olhou para a minha pipoca pronta para ser entregue, voltou a olhar para o homem e então, com os olhos semi-arregalados perguntou: "Quem vai mexer a pipoqueira?"

terça-feira, 4 de junho de 2013

Mudanças

Não sou a mesma pessoa... não sinto igual, não amo igual, não sofro igual... As mudanças não pedem permissão para acontecer, elas simplesmente nos surpreendem e nos arrebatam. Nos viram do avesso, nos jogam de um lado para o outro, assopram a poeira e dizem: acostume-se, você mudou. Com o corpo dolorido, a mente cansada, o ânimo fraco nos vemos em uma realidade desconhecida. Acordamos em um vasto deserto com uma missão e nenhuma ferramenta. Reconstrua-se. Mas como...? Se nem sequer temos todos os pedaços que faltam em nós... 
Seguir em frente é difícil, mas necessário... sentimos falta do velho "eu". Olhamos para trás e tudo parece tão melhor, mais feliz, mais coerente do que o deserto que temos a frente. Ver quem nós éramos traz uma sensação de vazio, perda, confusão... quem sou eu agora? 
Mudanças não pedem permissão para acontecer... a vida nos tira o que temos de mais estimado, para que na ausência de tudo possamos nos agarrar àquilo que menos valorizamos: a existência, a essência... a Alma.
Nós lutamos, sofremos e mudamos. Nada será como antes, diz a nossa Alma inquieta dentro de nós...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Pois então,...

"- Tudo bem, o que há de errado com o amor, Tony?
- O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz a gente se sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.
- Tudo bem, então devemos fazer o melhor possível."
Já dizia o sábio Bukowski...
[ Numa Fria - Bukowski ]

sábado, 22 de janeiro de 2011

Feliz

Uma vez lhe disseram que ela teria que fazer escolhas, que não poderia ter tudo, que para ganhar algo teria que abrir mão de alguma coisa. Disseram que ela não deveria se arriscar porque isso poderia lhe trazer dor, que ela não deveria amar porque o amor não seria capaz de trazer sua liberdade.


Mas não, ela não podia ficar de lado, escondida em um lugar seguro, assistindo sua vida passar, olhando tão infeliz. Ela sabia que só precisava segurar firme e não se deixar desaparecer...


Ela não se importava se iria machucar, não se importava se o mundo a jogasse para fora, tirando o chão de sob seus pés. Ela já não ligava para a dor que sabia que viria logo em frente. Ela queria apenas ser feliz.


Ela se sentia fraca e tinha vontade de abandonar tudo o que tinha conseguido. Ela estava caída, mas não havia sido derrotada. Ela não via sentido e não queria entender, cansada de se esforçar, cansada de nadar sempre contra a corrente. Ela queria uma solução rápida, mas não queria as consequências. Ela queria ser forte, ela precisava ser forte.


Ela queria apenas ser feliz.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Doces sonhos

Doces sonhos são feitos disso. Todos estão à procura de algo, ninguém consegue achar o que quer, mas todos têm algo que o outro procura.
Doces sonhos promovem isso. Alguns querem nos usar, outros querem ser usados por nós. Sem moralismo, sem culpa.
Doces sonhos produzem isso. Todos tentam escapar, mas não tentam evitar. Todos tentam fugir, mas não saem do lugar.
Doces sonhos acabam assim. Quem somos nós para discordar? Todos esperam a melhor chance. Pense uma vez, nunca pense duas, arrisque-se e jogue os dados.

sábado, 25 de setembro de 2010

Felicidades e antifelicidades (2005)

A vida e a morte iminente
Os momentos e as lembranças
A conquista e a perda
O perdão e o orgulho
A honestidade e a falsidade
O amor e a solidão
A vitória e a fama
O agir e o pensar
A esperança e a desilusão
O recomeço e a derrota
A decisão e a dúvida
A certeza e o medo
A tranquilidade e o desespero
A calma e a angústia
A chuva e o choro...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Não é justo?

A guerra está acabada, mas há um tempo para a raiva, a última ferida ainda sangra... O destino não foi capaz de impedir, nem de fazer acontecer. No final, tudo sempre esteve por nossa conta, nós somos os culpados, nós merecemos a punição. A última ferida ainda sangra, porque procurar uma nova? Porque temos uma nova? Porque as coisas simplesmente não acontecem de uma maneira branda, devagar? Porque tudo tem que ser tão brusco, tão rápido, e ainda assim tão simples? Simplesmente o que não esperávamos. As perguntas são inevitáveis, os fatos não ajudam, não temos uma única saída, estamos em um labirinto fechado. Porque parece que cada vez mais as risadas aumentam? Porque o mundo parece se distorcer? Porque tudo se derrete, se mistura, formando um triste mundo colorido? Porque isso sempre se repete? A lição já foi aprendida. Nós sabemos quem somos, sabemos o que queremos, lutamos por uma chance, não estamos fugindo. Não é justo? A última ferida ainda sangra, não queríamos uma nova, não mesmo. O tempo da raiva chegou, mas não foi o suficiente. O que vem agora?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Fora da vida

Fora de órbita... fora de ordem... fora de foco. Quando se espera muito, quando não se recebe nada, quando se perde o objetivo. Não há mais o que procurar, qualquer busca se torna sem sentido, sem nexo, desnecessária. Não há porque lutar, onde está o prêmio?
A vida fica morna, o comodismo lhe cai bem, é tão confortável quando se sabe reprimir tão bem o que se sente. Fazer de conta que não machuca é mais fácil do que curar. Esticando retalhos para cobrir buracos, às vezes eles acabam se partindo ao meio, e o retalho fica ainda menor.
Olhando ao redor, só olhando, sem ver, quando não se recebe nada, quando se espera muito, o mínimo se torna o paraíso, olhar basta, não precisa ver, não precisa identificar, não precisa possuir, apenas imagens correndo.
Fora de órbita... fora de ordem... fora de foco... Apenas vivendo... fora da vida.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Acorde!

Acorde! Penteie o cabelo e ponha um pouco de maquiagem. Esconda suas cicatrizes com uma dose de mentiras. Olhe-se no espelho e perceba que você sequer reconhece o que há por trás dos seus olhos.
Saia! Ande pelas ruas com sua melhor máscara. Finja que tem compromissos importantes. Simule diálogos irreverentes. Invente desculpas.
Volte! Corra como se alguém te esperasse. Se prepare para um evento especial. Sorria como um bobo.
Acorde! Admita a solidão.Adapte-se à realidade. Supere o vazio e não lamente o seu dia.
Porque todos queremos escolher. Sempre querendo jogar, mas nunca querendo perder.

domingo, 9 de maio de 2010

Diferente das outras

Sem culpa, ela está destinada a ser protegida, mas não há quem reacenda a chama em seu coração. Sem sangue, mas não há ninguém aqui por ela, ninguém ao seu lado, o mundo à abandonou... Ela deveria ter visto que seria desse jeito, ela deveria saber que acabaria assim. Quando você ama e perde, entende como é se sentir vazio.
Ela está indo embora, deixando este mundo. Flutuando como uma pluma, ela não é como as outras garotas. Ela vive nas nuvens e conversa com os pássaros, pequena desesperançosa, ela não é como as outras garotas.
Sem mais vergonha, ela já sentiu muita dor, em sua mente ela repete as palavras: 'todo amor que você demonstrou um dia voltará para você'.
Ela construiu o seu castelo e dele governa seu reino vazio. Ela não é como as outras garotas.
Ela canta palavras devoradas pelo vento, e espera uma resposta que nunca chegará. Ela não é como as outras garotas.
Sem mais tristeza, ela já consegue erguer a cabeça e fitar a imensidão... Sem amor, ela se esconde atrás das sombras da devoção...
Ela está indo embora, deixando este mundo. Flutuando como uma pluma, ela não é como as outras garotas...
*releitura da música 'Not like the other girls'

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Tarde demais

'Amanhã pode ser tarde demais...' Muitos falam, poucos seguem os princípios implícitos nessa frase que já está tão 'gasta'. É tão comum escutarmos pessoas dizendo que temos que 'viver intensamente', para 'não deixar para amanhã o que podemos fazer hoje', que a vida só se vive uma vez... Pessoas que afirmam não estarem arrependidas de nada do que tenham feito e defendem essa posição com unhas e dentes. Mas se isso fosse verdade porque vemos tantos medrosos, tantas pessoas que acham mais fácil ignorar e evitar uma outra pelo único motivo de terem medo do que vai acontecer depois. Pessoas que têm tanto medo de não viver que acabam perdendo tempo tentando forçar uma realidade longe do natural. Viver é acumular experiências e não fugir delas. É entender que as pessoas são únicas e que se aprende uma coisa nova com cada uma. É ter certeza que tudo pode ser diferente se você apenas decidir se arriscar. É se arrepender sim de eventuais falhas, mas não deixar que o remorso afete o que você tem pela frente.
Não existe um jeito certo de viver, não existe uma regra pra se 'viver intensamente', só existe o caminho... para frente...vivendo...antes que seja tarde demais.

quinta-feira, 18 de março de 2010

A espera...

Quando não há mais ninguém por perto... quando não se consegue mais derramar uma gota sequer do mais sincero choro... quando não se sabe ao menos o porquê de tamanho descaso... quando ninguém quer explicar... quando não há forças ou vontade continuar... quando o antigo 'eu' se perdeu e o novo 'eu' ainda não surgiu...
Não sabemos ao certo quem somos, não sabemos como devemos nos sentir. Flutuando acima da realidade procuramos alguma parte perdida de nós mesmos, flutuamos... leves e ao mesmo tempo pesados, nossa mente quer voar para longe do sofrimento, mas o coração diz 'enfrente, reaja, não se deixe levar para lugares tão distantes, não perca o caminho de volta'...
Queremos nos reconstruir, recriar o que se perdeu, mas não conseguimos olhar pra trás e sem fazê-lo não temos ânimo de ir em frente.
Temos vontade de fugir, deixar que o tempo nos preencha com alguma coisa, deixar que caminhos desconhecidos nos dêem a sensação de viver. Não queremos uma consciência vítima de uma dualidade, que nos incrimina logo após ter nos julgado inocentes, mas não queremos a ausência de sentimentos, o vazio, o torpor...
Quando o antigo 'eu' se perdeu e o novo 'eu' ainda não surgiu...

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Pequenas coisas

Coisas ruins acontecem a todo instante, não podemos evitar. Não existe uma maneira de não permitir que pessoas nos magoem, faz parte da vida. Temos a tendência de exigir a completa e mais perfeita felicidade mas ignoramos o fato de que não existe perfeição em parte alguma do mundo. Todos nós temos defeitos, dificuldades e limitações, mas isso jamais vai ser impedimento para se alcançar o equilibrio, a felicidade. Gostamos tanto de dar atenção aos eventos grandes e ruins, às decepções que tanto nos ferem e não atentamos para aquelas pequenas coisas, que uma vez já mudaram nosso dia, nos emocionaram, evidenciaram o que uma pessoa tem de melhor dentro de si. São elas que ilustram o caráter, exteriorizam aquilo que é mais dificil de se demonstrar, o que realmente se passa dentro de nós. Sem mentiras, sem fingimento, é a verdade expressa na sua mais simples forma.
Por mais que discórdias, mal entendidos ou grandes erros aconteçam, são as pequenas coisas que nos levam de volta. Sabemos que não é certo, mas parece tão injusto que elas nos infuenciem tanto, a ponto de esquecermos qualquer coisa que tenha nos deixado de alguma forma, mal.
Elas são nosso remédio, pequenas doses de pequenos gestos que muitos achariam insignificantes, mas que pra nós, que fomos moldados pela vida a socos e pontapés, valem o peso do mundo em ouro.
Não, não é uma questão de tolerar as maiores injustiças esperando no futuro receber migalhas de algo bom. É uma questão de valorizar aquilo que nos faz bem, e deixar que os desaforos dessa vida cuidem de si.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A boa e velha conversa

Nem sempre as palavras expressam aquilo que nós gostaríamos de dizer. Quando pensamos na capacidade da nossa mente, na magnitude do raciocínio humano, percebemos como nosso vocabulário é limitado. Percebemos como somos extremamente dependentes de nossa expressão corporal. Somos dotados de talentos incríveis, que por vezes não acompanham a linguagem escrita por ser esta demasiada obsoleta. Queremos expressar nossas conquistas e nos vemos limitados por palavras tão 'pequenas' e 'pobres', com significados tão vazios, que nos questionamos porquê usar palavras definidas por alguém que jamais teve as mesmas experiências que nós tivemos. Será que nos tornamos tão complexos a ponto de não conseguirmos nos comunicar através de meras palavras? Ou será que nos deixamos levar pela 'modernização', excluindo de nossas vidas a boa e velha conversa 'cara a cara', nos restringindo a um mundo de 'longas distâncias'? Mundo este onde não temos o apoio de nossas expressões e gestos, que otimizariam em muito nossa relação com as pessoas que nos cercam.
Porque será que nem sempre as palavras expressam aquilo que gostaríamos de dizer? Nos cansamos de ouvir que "um gesto vale mais que mil palavras" e ainda temos dúvida quanto a resposta para isso. E se tomamos isso como verdade, que diriamos quanto a um gesto e uma palavra utilizados em conjunto... o mundo teria um colapso....

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Tentativas

Me perdoe por começar com isso tudo. Mas a ninguém pode ser vetado o direito de sonhar. As coisas que eu queria dizer se perdem antes mesmo que eu consiga formula-las, e eu não consigo te explicar, espero que com o tempo, as ações possam falar aquilo que as palavras não conseguiram dizer.
Todos somos sonhadores natos, uns têm sonhos mais ambiciosos, outros se contentam com as coisas simples da vida. Todos procuramos avidamente por alguém que possa realizá-los, alguns procuram bem longe, outros simplesmente abrem seus olhos e começam a perceber quem está a sua volta. Temos a sensação de que se procurarmos longe teremos uma recompensa maior, nosso esforço será reconhecido. Sofremos com a caminhada e por vezes gostamos disso. Gostamos da ideia de nos martirizarmos por aquilo de tal maneira que paramos de procurar pelo que realmente interessa. Tudo o que precisamos pode estar ao nosso lado, é uma questão de olhar em todas as direções, de saber reconhecer nosso sonho quando olhamos para ele, de descobri-lo dentro de alguém. Não precisamos de uma longa jornada para uma grande realização, precisamos sim é de percepção e sensibilidade. Ser sensível é ser capaz de ver com nitidez o que pra muitos passaria despercebido, é aproveitar oportunidades mascaradas de pequenas possibilidades.
Todos somos sonhadores natos, a diferença é que poucos são corajosos o suficiente para se arriscar a realizar seus sonhos. Fazendo coisas que normalmente não faziam, procurando em lugares que antes nem olhavam, confiando inteiramente em alguém depois de ter sido completamente enganado por outro, é assim que conseguiremos... a tentativa aumenta a probabilidade. Tudo é uma questão de tentar...